A doença de Bowen é o carcinoma espinocelular in situ, uma neoplasia maligna de queratinócitos confinada à epiderme, que ainda não atravessou a membrana basal. Apresenta-se como placa avermelhada e descamativa de crescimento lento, frequentemente tratada por meses como eczema ou psoríase. Diagnosticada nesse estágio, tem taxas de cura descritas entre 95% e 98%.
A doença de Bowen é câncer de pele. O diagnóstico corresponde ao carcinoma espinocelular in situ, e a palavra carcinoma no laudo não é exagero de nomenclatura: as células já apresentam todas as características de malignidade.
O que muda em relação ao carcinoma invasivo é o alcance. O tumor permanece inteiramente dentro da epiderme, sem romper a membrana basal, a estrutura que a separa da derme. Abaixo dessa fronteira estão os vasos sanguíneos e linfáticos, e enquanto o tumor não a atravessa, não existe caminho para disseminação a distância. É por isso que o diagnóstico gera alívio e urgência ao mesmo tempo: alívio pelo estágio, urgência porque a janela não fica aberta para sempre.
Este guia descreve como a lesão se apresenta, por que ela é tão confundida com dermatoses inflamatórias comuns, o que a provoca, quais variantes exigem conduta específica, como se confirma o diagnóstico e o que muda no tratamento conforme a topografia.
O que é a doença de Bowen
A doença de Bowen é um carcinoma espinocelular que permanece inteiramente dentro da epiderme. As células tumorais já apresentam todas as características de malignidade, mas não romperam a membrana basal.
A expressão in situ indica que o tumor está no lugar de origem, sem invasão. Ela não significa que a lesão seja benigna ou que possa ser observada indefinidamente. A doença de Bowen é câncer de pele, com a diferença de estar no estágio em que o tratamento é mais simples e mais eficaz.
Como a doença de Bowen aparece na pele
A doença de Bowen manifesta-se como uma placa avermelhada, bem delimitada, com superfície descamativa ou crostosa e crescimento muito lento, ao longo de meses a anos. O tamanho varia de poucos milímetros a vários centímetros.
A lesão costuma ser assintomática, embora possa causar coceira leve. Não dói, não incomoda e não impede nada, o que contribui diretamente para o adiamento da avaliação.
Onde ela costuma surgir
As pernas concentram boa parte dos casos, com predomínio em mulheres. Tronco, cabeça e pescoço também são topografias frequentes. Formas específicas aparecem nos dedos e ao redor das unhas, além da região genital, onde a apresentação na glande recebe o nome de eritroplasia de Queyrat.
A placa que não é eczema
O diagnóstico diferencial é o ponto onde a doença de Bowen mais perde tempo. A aparência de placa avermelhada e descamativa é praticamente idêntica à de dermatoses inflamatórias comuns, e o tratamento empírico com corticoide tópico costuma ser a primeira conduta tentada.
O sinal que desfaz a confusão é a ausência de resposta. Eczema e psoríase melhoram com corticoide em poucas semanas. A doença de Bowen permanece igual, ou continua crescendo lentamente, indiferente à medicação.
| Característica | Doença de Bowen | Eczema numular | Psoríase em placa |
|---|---|---|---|
| Número de lesões | Em geral isolada | Múltiplas | Múltiplas e simétricas |
| Bordas | Muito bem delimitadas | Menos definidas | Bem definidas |
| Evolução | Meses a anos, progressiva | Surtos com melhora | Surtos com melhora |
| Resposta a corticoide | Ausente | Boa | Parcial a boa |
| Coceira | Ausente ou leve | Intensa | Variável |
Bowen e ceratose actínica: displasia, in situ e invasivo
A ceratose actínica antecede a doença de Bowen no mesmo processo. Ela representa displasia, uma alteração celular que ainda não configura carcinoma. A doença de Bowen é o degrau seguinte, já com carcinoma estabelecido, porém sem invasão. O carcinoma espinocelular invasivo é o terceiro estágio.
Distinguir esses três pontos importa porque cada um admite condutas diferentes, com graus distintos de urgência e de complexidade cirúrgica.
O que causa a doença de Bowen
A radiação ultravioleta acumulada responde pela maior parte dos casos, especialmente nas lesões que surgem em áreas fotoexpostas. Outras causas explicam as apresentações em topografias que não recebem sol.
HPV nas formas digital e genital
Tipos oncogênicos do HPV estão associados à doença de Bowen que aparece nos dedos, ao redor das unhas e na região genital. A infecção pode ter latência longa, com intervalo de muitos anos entre o contato e o aparecimento da lesão, o que torna impossível estabelecer momento ou origem.
Arsênico, imunossupressão e radiação
Exposição a arsênico, hoje rara e geralmente ocupacional ou ligada a medicações antigas, é causa clássica descrita na literatura. Imunossupressão por transplante ou por uso de imunobiológicos aumenta o risco. Radiação ionizante prévia na área também figura entre os fatores documentados.
Variantes que exigem atenção especial
Duas apresentações da doença de Bowen fogem do padrão observado em pernas e tronco. Elas surgem em regiões com pouca pele disponível e alta exigência funcional, o que altera tanto a suspeita clínica quanto a escolha do tratamento.
Doença de Bowen no dedo e ao redor da unha
A forma digital costuma ser confundida com verruga viral, micose ou paroníquia crônica, e pode permanecer sem diagnóstico por anos. Quando acomete o aparelho ungueal, provoca alterações na lâmina da unha, descamação persistente e, em alguns casos, destruição parcial da estrutura.
A associação com HPV oncogênico é frequente nessa localização. A pele do dedo não permite margens amplas sem prejuízo de função, o que faz do controle preciso das margens uma exigência técnica, não uma preferência.
Eritroplasia de Queyrat
A eritroplasia de Queyrat é a doença de Bowen que se manifesta na glande, apresentando-se como placa avermelhada, aveludada e bem delimitada. O diagnóstico costuma demorar porque a lesão é confundida com balanite e tratada como processo inflamatório.
A avaliação nessa topografia é estritamente clínica e não comporta suposições sobre comportamento ou histórico do paciente. O período de latência do HPV pode alcançar muitos anos.
Como é feito o diagnóstico
A suspeita nasce da observação clínica: uma placa persistente, bem delimitada, que não responde ao tratamento tentado. A dermatoscopia auxilia ao revelar padrões vasculares característicos, como os vasos glomerulares distribuídos em agrupamentos.
A confirmação vem da biópsia, que estabelece o diagnóstico e verifica se há algum foco de invasão da derme. Essa verificação é o que separa a conduta de carcinoma in situ da conduta de carcinoma invasivo, com implicações diretas sobre margem cirúrgica e seguimento.
Em lesões extensas, a coleta pode ser feita em mais de um ponto, já que a invasão pode estar presente em apenas parte da placa. O resultado orienta a escolha entre as modalidades de tratamento disponíveis.
Tratamento da doença de Bowen
O tratamento dispõe de várias modalidades, e a escolha depende do tamanho da lesão, da topografia, do número de lesões e das condições do paciente. Nem todas as opções entregam o mesmo controle.
Cirurgia com margens
A ressecção cirúrgica com margens é o tratamento com os menores índices de recidiva descritos, com taxas de cura relatadas entre 95% e 98%. A vantagem está na possibilidade de análise histológica da peça, que confirma a remoção completa e verifica a ausência de invasão oculta.
Quando a Cirurgia Micrográfica de Mohs é indicada
Diretrizes internacionais recomendam a Cirurgia Micrográfica de Mohs para a doença de Bowen digital e para casos selecionados de tumor genital in situ, pelo benefício de preservação tecidual. Lesões em face e em outras regiões com pouca margem anatômica disponível seguem a mesma lógica.
Nessas topografias, cada milímetro de pele removida tem custo funcional. A análise de 100% das margens durante o ato operatório permite retirar o tumor completo poupando o máximo de tecido sadio, com margem de 1 a 2 mm ampliada apenas onde ainda existe doença.
Crioterapia, terapia fotodinâmica e tratamentos tópicos
Crioterapia, curetagem, terapia fotodinâmica e medicações tópicas como 5-fluorouracil e imiquimode compõem o conjunto de alternativas não excisionais. Elas evitam a cicatriz cirúrgica e funcionam bem em lesões superficiais, extensas ou múltiplas, sobretudo nas pernas.
A limitação é comum a todas: nenhuma permite verificar a margem histológica. A escolha equilibra controle oncológico, cicatrização na região e preferência do paciente, decisão que pertence à consulta.
O que acontece se a doença de Bowen não for tratada
Sem tratamento, parte das lesões progride para carcinoma espinocelular invasivo. A progressão não é regra em todos os casos e costuma levar anos, o que cria a falsa sensação de que a lesão é inofensiva.
O problema dessa aposta é o custo da mudança de estágio. Enquanto a doença permanece in situ, o tratamento é local e altamente curativo. Após a invasão, entram em cena margens maiores, estratificação de risco e a possibilidade de acometimento linfonodal.
A mudança também afeta o resultado estético e funcional. Uma lesão tratada ainda no estágio in situ exige remoção de pouco tecido. A mesma lesão, depois de invasiva, demanda margens ampliadas e reconstrução mais complexa, sobretudo em dedos, face e região genital, onde não há pele sobrando.
Recidiva e seguimento
As recidivas da doença de Bowen são relativamente comuns, com séries descrevendo faixas entre 16% e 31%, ocorrendo em média cerca de cinco anos após o tratamento. Esses números descrevem populações estudadas e não preveem o desfecho de nenhum paciente individualmente.
O intervalo médio de cinco anos tem consequência prática direta: o acompanhamento precisa ultrapassar o primeiro ano. Quem teve doença de Bowen também acumula risco de novas lesões em outras áreas, porque o dano actínico que originou a primeira permanece.
Avaliação de lesões persistentes de pele em Florianópolis
Uma placa avermelhada que não responde a pomada, que permanece igual por meses ou que cresce lentamente merece avaliação com dermatoscopia e, quando indicado, biópsia. Tratar por meses como eczema é um percurso comum, e não representa falha do paciente.
O Dr. Timotio Dorn (CRM/SC 22594 · RQE 13225) atua em oncologia cutânea e cirurgia dermatológica em Florianópolis e em Rio do Sul, com certificação em Cirurgia Micrográfica de Mohs emitida pelo Departamento de Cirurgia Micrográfica da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Na consulta, avalio a lesão com dermatoscopia e indico a biópsia quando o quadro exige confirmação histológica. Agende sua avaliação.
O Dr. Timotio Dorn é médico dermatologista (CRM/SC 22594 · RQE 13225). Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica.
Perguntas frequentes sobre a doença de Bowen
A doença de Bowen é grave?
A doença de Bowen é um carcinoma, mas em estágio pré-invasivo, sem capacidade de metástase enquanto permanece restrita à epiderme. Tratada nesse ponto, apresenta taxas de cura descritas na literatura entre 95% e 98%. A gravidade aumenta apenas se a lesão evoluir para carcinoma espinocelular invasivo, situação que costuma levar anos e pode ser evitada com tratamento oportuno.
Passei corticoide por meses. Perdi tempo?
A confusão com eczema e psoríase é frequente, inclusive entre profissionais, porque a aparência das lesões é muito semelhante. A doença de Bowen cresce lentamente, ao longo de anos. O importante agora é concluir a investigação com biópsia e definir o tratamento adequado ao caso.
A doença de Bowen é contagiosa?
A doença de Bowen em si não se transmite entre pessoas. Nas formas digital e genital existe associação com tipos oncogênicos do HPV, vírus que pode ser transmitido. A presença do vírus não define quando nem como ocorreu o contato, dado o longo período de latência possível.
Existe tratamento sem cirurgia?
Sim. Crioterapia, curetagem, terapia fotodinâmica e medicações tópicas como imiquimode e 5-fluorouracil são alternativas usadas principalmente em lesões superficiais, extensas ou múltiplas, com destaque para as localizadas nas pernas. Nenhuma delas permite análise da margem histológica, limitação que precisa entrar na decisão junto com a topografia e o tamanho da lesão.
A doença de Bowen pode voltar depois de tratada?
Pode. Séries publicadas descrevem recidivas em faixas entre 16% e 31%, com intervalo médio de aproximadamente cinco anos após o tratamento inicial. Por esse motivo o acompanhamento dermatológico precisa se estender bastante além do primeiro ano, incluindo o exame das demais áreas de pele fotoexposta do paciente.
Qual a diferença entre doença de Bowen e ceratose actínica?
A ceratose actínica é uma displasia, alteração celular que antecede o carcinoma. A doença de Bowen já é carcinoma espinocelular estabelecido, porém confinado à epiderme. Os dois integram o mesmo processo de dano solar acumulado, em estágios distintos, com condutas e graus de urgência diferentes.




