Melanoma em Homens e Mulheres: Por Que o Risco Muda com a Idade e com a Parte do Corpo?
Pequeno melanoma na posterior do joelho direito

O melanoma em homens e mulheres não se comporta exatamente da mesma maneira ao longo da vida. Durante muito tempo acreditou-se que as diferenças na incidência do melanoma entre os sexos eram explicadas principalmente pelo comportamento: exposição ao sol, uso irregular de protetor solar ou hábitos de lazer diferentes.

Por exemplo, imaginava-se que os homens desenvolviam mais câncer de pele porque usavam menos proteção solar ou trabalhavam mais ao ar livre, enquanto as mulheres apresentariam mais lesões em determinadas regiões do corpo por causa da exposição estética, como nas pernas.

No entanto, pesquisas mais recentes demonstram que essa explicação é apenas parte da história.

Um grande estudo internacional publicado na revista JAMA Dermatology analisou dados de incidência de melanoma ao longo de mais de três décadas em oito países com populações predominantemente de pele clara, incluindo Estados Unidos, Canadá, Austrália e diversos países europeus.

O objetivo era responder a uma pergunta simples, mas extremamente importante para a dermatologia:

Por que homens e mulheres desenvolvem melanoma em ritmos diferentes e em partes distintas do corpo ao longo da vida?

Os resultados mostram que o melanoma não depende apenas da exposição solar. Fatores biológicos, genéticos e comportamentais também desempenham papéis importantes — e essas influências variam conforme o sexo e a idade.

Compreender essas diferenças ajuda não apenas a entender melhor a doença, mas também a orientar estratégias mais eficazes de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce.

1. Mulheres têm mais melanomas antes dos 45 anos

Um dos achados mais consistentes da literatura é que mulheres jovens apresentam maior incidência de melanoma do que homens da mesma faixa etária.

Essa diferença costuma ser observada especialmente antes dos 45 anos.

Existem algumas hipóteses para explicar esse padrão.

Primeiramente, as mulheres costumam apresentar maior número de nevos (pintas) nas pernas, uma região que também é mais frequentemente exposta ao sol durante atividades recreativas.

Os nevos melanocíticos são um dos principais fatores de risco para melanoma. Quanto maior o número de pintas, maior tende a ser o risco de transformação maligna ao longo da vida.

Além disso, a exposição solar intermitente — típica de atividades como praia, esportes ao ar livre ou lazer — está associada ao desenvolvimento de melanoma, especialmente em pessoas jovens.

Esse tipo de exposição difere da exposição solar ocupacional crônica. Em vez de pequenas doses contínuas de radiação ultravioleta, ocorre uma exposição intensa e episódica, que pode gerar queimaduras solares e danos ao DNA das células da pele.

Outro fator importante é que mulheres jovens costumam procurar mais atendimento dermatológico, o que pode aumentar a detecção precoce de melanomas mais finos.

Isso não significa necessariamente que elas desenvolvam mais tumores agressivos, mas sim que mais lesões são identificadas em estágios iniciais.

Pequeno melanoma na posterior do joelho direito
Melanoma detectado em estágio inicial em uma consulta de rotina com o médico dermatologista

2. Homens ultrapassam as mulheres depois da meia-idade

Após Depois dos 50 a 60 anos, o padrão epidemiológico muda de forma significativa.

A incidência de melanoma passa a ser maior nos homens, e essa diferença tende a aumentar progressivamente com o envelhecimento.

Além disso, os melanomas diagnosticados em homens costumam ser mais espessos no momento do diagnóstico, o que está associado a um risco maior de disseminação da doença.

Diversos fatores podem contribuir para esse fenômeno.

Um deles é o padrão de exposição solar ao longo da vida. Homens costumam ter maior exposição cumulativa ao sol, especialmente em regiões como cabeça, pescoço e dorso.

Essas áreas recebem radiação ultravioleta de forma contínua durante décadas, o que favorece a formação de mutações celulares.

Outro fator importante é o comportamento de saúde. Estudos mostram que homens tendem a procurar assistência médica com menor frequência e muitas vezes apenas quando a lesão já apresenta alterações mais evidentes.

Esse atraso no diagnóstico pode resultar em tumores mais espessos e mais avançados.

Em países com radiação ultravioleta muito elevada, como a Austrália, essa inversão entre os sexos ocorre ainda mais cedo.

Isso reforça o papel da exposição solar cumulativa no desenvolvimento do melanoma.

3. O “mapa anatômico” do melanoma é diferente em homens e mulheres

Outro achado interessante da epidemiologia do melanoma é que a localização das lesões costuma variar conforme o sexo.

Na prática clínica, dermatologistas frequentemente observam padrões relativamente previsíveis de distribuição do melanoma.

Nos homens, os melanomas aparecem com maior frequência em:

  • Tronco (principalmente dorso)
  • Cabeça e pescoço
  • Couro cabeludo

Nas mulheres, por outro lado, os melanomas são mais frequentemente diagnosticados em:

  • Pernas
  • Região inferior dos membros
  • Áreas expostas durante atividades recreativas

Essas diferenças são observadas inclusive em estudos com crianças e adolescentes, o que sugere que não se tratam apenas de fatores comportamentais.

A distribuição anatômica dos nevos melanocíticos também segue esse padrão. Meninas tendem a apresentar mais pintas nas pernas, enquanto meninos costumam apresentar mais nevos no tronco.

Essa diferença provavelmente tem base genética e biológica.

Além disso, hormônios sexuais podem exercer influência na biologia dos melanócitos — as células responsáveis pela produção de pigmento na pele.

Ainda que muitos mecanismos permaneçam em estudo, fica claro que o melanoma apresenta padrões distintos entre homens e mulheres desde fases precoces da vida.

4. Implicações práticas para prevenção

O papel da radiação ultravioleta no desenvolvimento do melanoma

A radiação ultravioleta continua sendo um dos principais fatores ambientais envolvidos no desenvolvimento do melanoma.

Existem dois tipos principais de radiação ultravioleta associados ao dano cutâneo:

UVB

  • responsável pelas queimaduras solares
  • causa dano direto ao DNA

UVA

  • penetra mais profundamente na pele
  • contribui para envelhecimento cutâneo e mutações celulares

A exposição solar intensa, especialmente quando associada a queimaduras na infância ou adolescência, aumenta significativamente o risco de melanoma.

No entanto, o tipo de exposição solar também parece influenciar o padrão da doença.

Melanomas que surgem em áreas de exposição intermitente (como tronco ou pernas) podem estar associados a episódios intensos de sol ao longo da vida.

Já melanomas em regiões de exposição crônica (como face e couro cabeludo) costumam estar ligados ao acúmulo de radiação ultravioleta ao longo de décadas.

🔹 5. O diagnóstico precoce continua sendo a principal estratégia contra o melanoma

Apesar de ser o tipo mais agressivo de câncer de pele, o melanoma apresenta altas taxas de cura quando diagnosticado precocemente.

Quando o tumor é identificado ainda em estágio inicial, a taxa de cura pode ultrapassar 90–95% apenas com tratamento cirúrgico.

Por isso, reconhecer sinais suspeitos é fundamental.

Entre os sinais mais conhecidos estão os critérios do ABCDE do melanoma:

A – Assimetria
Uma metade da pinta é diferente da outra.

B – Bordas irregulares
Contornos mal definidos ou serrilhados.

C – Cor variada
Mistura de tons de marrom, preto, azul ou vermelho.

D – Diâmetro maior que 6 mm

E – Evolução
Mudança no tamanho, cor ou formato da lesão.

Qualquer alteração em pintas existentes ou surgimento de novas lesões pigmentadas deve ser avaliada por um dermatologista.

Prevenção personalizada: homens e mulheres precisam de estratégias diferentes

As diferenças observadas na epidemiologia do melanoma mostram que a prevenção não deve ser completamente uniforme para todos.

Algumas recomendações podem ser adaptadas conforme o perfil de risco.

Para mulheres

  • Atenção especial às pernas, onde o melanoma é mais frequente
  • Uso regular de fotoproteção desde a juventude
  • Avaliação periódica de pintas

Para homens

  • Exame cuidadoso de tronco, couro cabeludo, orelhas e pescoço
  • Maior atenção a lesões nas costas
  • Avaliações dermatológicas periódicas a partir da meia-idade

Além disso, indivíduos com múltiplos nevos, histórico familiar de melanoma ou pele muito clara devem manter acompanhamento dermatológico regular.

O que podemos aprender com esses dados

O estudo das diferenças entre melanoma em homens e mulheres revela que a doença é resultado de uma interação complexa entre vários fatores:

  • predisposição genética
  • distribuição dos nevos
  • comportamento de exposição solar
  • envelhecimento da pele
  • fatores hormonais
  • hábitos de saúde

Essa combinação explica por que homens e mulheres desenvolvem melanoma em idades diferentes e em regiões distintas do corpo.

Compreender esses padrões ajuda os dermatologistas a orientar melhor seus pacientes e a melhorar estratégias de rastreamento.

Conclusão

O melanoma não é apenas uma consequência direta da exposição ao sol.

Ele surge a partir da interação de fatores biológicos, ambientais e comportamentais que atuam de forma diferente em homens e mulheres ao longo da vida.

Mulheres tendem a apresentar mais melanomas em idades jovens, especialmente nas pernas, enquanto homens apresentam maior incidência após a meia-idade, frequentemente em tronco, cabeça e pescoço.

Essas diferenças mostram que prevenção e diagnóstico precoce precisam ser personalizados.

E a principal mensagem continua sendo clara:

Quanto mais cedo o melanoma é identificado, maiores são as chances de cura.

Aviso médico

Este texto tem caráter apenas informativo e não substitui uma consulta médica.

Se você percebeu alguma pinta que mudou de aspecto ou tem dúvidas sobre lesões na pele, procure avaliação com um dermatologista.

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